Nos últimos anos, uma questão tem se tornado cada vez mais comum nas discussões, tanto em conversas informais quanto no âmbito jurídico: o que caracteriza o assédio? No Espírito Santo, a quantidade de processos relacionados a assédio sexual no ambiente de trabalho subiu de 45 em 2020 para 977 em 2025.

A princípio, a interpretação parece clara: houve um aumento nos casos de assédio. No entanto, essa conclusão ignora a complexidade do fenômeno. Se fosse apenas um crescimento dessa conduta, ela não teria permanecido oculta por tanto tempo. O que realmente cresceu foi a disposição de não normalizar mais atitudes que sempre foram consideradas violência.

É importante notar que essa mudança não é um fenômeno isolado. Estatísticas do Tribunal Superior do Trabalho revelam um aumento significativo nas ações por assédio sexual em todo o Brasil, refletindo uma ampliação da compreensão sobre o que constitui esse tipo de comportamento. A Resolução nº 351 do Conselho Nacional de Justiça, estabelecida em 2020, contribuiu para a definição de critérios mais claros sobre o assunto. Assim, não se trata apenas de um aumento no número de casos, mas sim de uma redução do silêncio que cercava essas situações.

Durante muitos anos, certas situações eram ignoradas e não reconhecidas como violência. Comentários sexualmente sugestivos disfarçados de brincadeira, aproximações insistentes ou toques indesejados eram considerados parte do cotidiano e difíceis de serem denunciados.

Esse desconforto era frequentemente acompanhado por dúvidas: será que estava sendo exagerada? Valeria a pena fazer uma reclamação? Essa hesitação não é um sinal de fraqueza individual, mas sim resultado de um ambiente que normaliza comportamentos abusivos e desqualifica as percepções das vítimas.

Considere uma situação comum: uma funcionária recebe um comentário sobre seu corpo por parte de alguém em posição superior enquanto caminha pelo corredor. Ela ri sem graça e segue adiante. Mais tarde, continua refletindo sobre isso — não necessariamente sobre o comentário em si, mas sobre sua própria reação. Por que se sentiu desconfortável se tudo não passou de uma piada? E se ela decidir reclamar, poderão dizer que não entende humor? Esse espaço entre a sensação vivida e o que pode ser verbalizado é onde o assédio frequentemente se instala.

A transformação atual vai além da mudança no comportamento; trata-se também da maneira como esse comportamento é reconhecido. A legislação e os debates sociais ampliaram a percepção acerca do assédio: este não se limita apenas a incidentes extremos, mas inclui condutas recorrentes que geram constrangimento e invadem espaços pessoais, geralmente permeadas por dinâmicas de poder. Quando os critérios ficam mais evidentes, aquilo que antes era visto como confusão interna passa a ter nome. E ao ser nomeado, deixa de ser algo meramente suportado.

No entanto, reconhecer o problema não resolve tudo. O assédio frequentemente se perpetua em assimetrias — seja hierárquicas ou relacionadas à influência — que dificultam as denúncias. O medo é palpável: envolve retaliações, perda de prestígio profissional e isolamento. Muitas vezes, as vítimas percebem o que está acontecendo, mas ponderam os custos associados em sustentar essa percepção.

Nesse cenário, o silêncio deixa de ser ausência e torna-se uma estratégia para sobreviver. Durante anos essa dinâmica produziu um ambiente silencioso; porém, esse silêncio começa a desmoronar.

A prática do assédio raramente ocorre isoladamente. Ela se repete e acumula com o tempo. Gradativamente, o local de trabalho transforma-se em um espaço defensivo; as pessoas já não estão ali para atuar plenamente, mas sim para proteger-se.

Essa realidade afeta não apenas quem sofre diretamente com a situação. Todo o ambiente laboral acaba sendo influenciado por tais dinâmicas. As interações tornam-se mais cautelosas, a comunicação fica comprometida e a confiança se fragiliza. Isso pode provocar consequências posteriores: algumas pessoas optam por deixar seus empregos; outras permanecem na empresa sem estarem realmente envolvidas. O corpo pode estar presente fisicamente, mas os laços emocionais são rompidos.

No passado, muitas organizações viam isso como um problema pessoal entre indivíduos envolvidos. Contudo, esse entendimento já não é mais válido. O ambiente laboral não é neutro — ele pode desencorajar ou facilitar certos comportamentos. Quando há falta de escuta ativa às denúncias e quando as hierarquias prevalecem sobre a proteção aos trabalhadores,o assédio existe mesmo sem incentivo explícito; sua simples tolerância é suficiente.

É essencial afirmar claramente: isso não pode continuar sem consequências tangíveis. Não se trata apenas de ser excessivamente sensível ou judicializar as relações interpessoais; trata-se da responsabilidade coletiva em ambientes profissionais — tolerar o assédio equivale a autorizá-lo na prática.

Aqueles que sofrem com essa violência não devem arcar sozinhos com os custos decorrentes de abusos visíveis e audíveis ao ambiente ao redor.A omissão tem suas implicações, um impacto significativo que precisa ser responsabilizado. Já passou da hora de parar de encarar como falhas individuais aquilo que tem raízes estruturais profundas.

Um aspecto frequentemente negligenciado — e que merece destaque — é que o assédio raramente ocorre sem testemunhas presentes. Ele depende também da inação daqueles que veem e compreendem a situação sem intervir; nem sempre por concordância explícita, mas muitas vezes por medo ou conveniência pessoal. Imagine outra cena: durante uma reunião alguém faz um comentário inapropriado sobre uma colega ausente.

Ninguém reage; há risadas nervosas na mesa e as discussões prosseguem sem interrupções. O assédio não requer aplausos; basta simplesmente não haver resistência ao ato cometido ao lado dos demais presentes. Enquanto comportamentos abusivos puderem ser assistidos como algo irrelevante para quem está ao redor deles, continuarão encontrando espaço para existir.

No final das contas, a pergunta emergente — “isso é assédio?” — vai além do mero exagero contemporâneo; representa um indicativo claro de insatisfação com o silêncio prolongado sobre esses assuntos incômodos. Esta mudança desloca o foco do problema — deixando-o claro como algo coletivo ao invés de meramente individual — expondo uma cultura inteira que funcionou durante muito tempo à custa da visão seletiva dos envolvidos — daqueles que optaram por ignorar ou fazer vista grossa à realidade ao seu redor. Nenhuma cultura persiste sem cumplicidade mútua; nenhuma transformação ocorrerá até que essa cumplicidade comece a ter suas repercussões negativas.

Mudanças significativas nesse contexto não podem depender unicamente do aumento nos registros formais ou da revisão das normas vigentes. O foco deve estar no comportamento socialmente aceito — no que deixou efetivamente de ser tolerado pelas comunidades laborais — decisões essas tomadas diariamente nas interações cotidianas quando alguém ultrapassa limites estabelecidos — e quando aqueles ao redor têm a opção (ou obrigação) de interromper tais atos abusivos. Enquanto essa mudança paradigmática não for alcançada, o problema persistirá; apenas mudará sua forma e continuará existindo sob novas roupagens.