“Neblina, falta de comida e dormir embaixo de gruta” foram algumas das situações de tensão e drama vivenciadas pelos irmãos encontrados após mais de 50 horas perdidos no Pico da Bandeira, no Parque Nacional do Caparaó, no Espírito Santo.

Jhonatan e Juliana Peixoto Ribeiro estavam desaparecidos desde a segunda-feira (23) e mobilizaram uma busca realizada por equipes de resgate e voluntários.

Durante a quarta-feira (25), segundo informações do Corpo de Bombeiros, eles solicitaram ajuda em uma propriedade particular em Ibitirama. Foi realizado contato com a família e encaminhado para uma equipe do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.

Em conversa com uma equipe do 3º Batalhão do CBMES, Jhonatan contou que a intenção dos irmãos era fazer um trajeto mais curto. Eles não chegaram ao cume da montanha e seguiram apenas até o Pico do Calçado, ponto abaixo do destino principal.

A gente começou a descer e entrou uma neblina muito forte. Foi nesse momento que nos perdemos.

Juliana Peixoto Ribeiro

Irmãos dormiram na chuva

Em meio à baixa visibilidade, os irmãos tentaram encontrar um caminho de volta, com base em uma demarcação. No meio da montanha, eles avistaram carros ao longe, próximos da saída da trilha.

“Achamos que ainda daria tempo de descer, mas não conseguimos. Dormimos na chuva no primeiro dia. Só no segundo conseguimos um abrigo embaixo de uma gruta”, relatou Jhonatan.

O desgaste físico e emocional aumentou com o passar das horas. Sem comida e com pouca hidratação, os efeitos começaram a aparecer. “Ficamos alucinados, vendo miragens e ouvindo vozes”.

Sem encontrar vestígios de pessoas e longe da rota, eles continuaram descendo até avistarem demarcações em árvores, sinal de que estavam próximos de áreas frequentadas.

Vimos as demarcações nas árvores, seguimos a trilha até o pessoal, da família da Aparecida e do Paulo.

Juliana Peixoto Ribeiro

Guia do parque explica que trilha costuma seguir padrão

Segundo o guia do Parque Nacional do Caparaó, Sairo Câmara Guedes, a dinâmica da trilha costuma seguir um padrão.

Por volta das 14h, eles foram para o acampamento e aí geralmente a pessoa fica no acampamento de 14h até 2h, quando começa a trilha para o Pico da Bandeira para ver o nascer do sol, por volta das 5h40. E aí, por volta das 6h, começa a descer para o acampamento.

Sairo Câmara Guedes, guia do parque

De acordo com ele, as equipes caminharam das 20h até as 5h sob chuva constante. “Choveu a noite toda, dificulta o acesso e, por conta das nascentes, o volume de água aumenta e isso dificulta a gente achá-los. A gente imagina que eles tenham errado o caminho por conta da descida e, como choveu, ficou ainda mais difícil”.

Desaparecimento ocorreu na madrugada de segunda (23)

Os irmãos desapareceram na madrugada de segunda-feira (23). Segundo informações repassadas às equipes de resgate, o grupo era formado inicialmente por quatro irmãos. Dois deles decidiram permanecer no acampamento da Casa Queimada após relatarem cansaço.

Os irmãos seguiram a trilha por volta das 2h, com destino ao cume do Pico da Bandeira, e não retornaram ao ponto de apoio.

As primeiras buscas começaram ainda na madrugada de terça-feira (24), mesmo sob condições climáticas adversas, com registro de chuva e ventos fortes na região de montanha.

Seis militares participaram da varredura inicial, concentrando esforços nas imediações da trilha principal e em pontos estratégicos do percurso.

Além das corporações do Espírito Santo e de Minas Gerais, participam da operação servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), voluntários e cães farejadores.