Em 2025, falar de economia global sem falar da China é praticamente impossível. O país é hoje:
a segunda maior economia do mundo em PIB nominal e a maior em poder de compra;
responsável por cerca de 19,6% de todo o PIB global;
líder absoluta no comércio de bens, respondendo por algo em torno de 15% a 16% das exportações mundiais.andamanpartners.com+1
Ao mesmo tempo em que continua central nas cadeias de suprimentos, a China vive uma fase de crescimento mais moderado, com projeções em torno de 4,5% em 2025, pressionada por restrições comerciais, envelhecimento populacional e reestruturação interna do seu modelo econômico.t
Nesse cenário, entender o papel da China significa entender, em grande medida, o rumo do comércio internacional, das cadeias de suprimentos e da própria estabilidade da economia mundial. É justamente sobre isso que se debruça a análise de Ernani Rezende Kuhn, com foco especial em comércio e reorganização das cadeias globais.
1. China em 2025: potência em transição, não em declínio
Apesar da narrativa de “desaceleração”, a China continua gigantesca em termos relativos:
mantém quase 1/5 da economia mundial;
segue como maior exportadora de bens do planeta, com exportações de cerca de US$ 3,6 trilhões em 2024;
consolidou, em 2024, um recorde histórico de comércio exterior, com importações + exportações somando cerca de 6,1 trilhões de dólares.
Ao mesmo tempo, organismos internacionais como Banco Mundial, OCDE e FMI projetam crescimento mais fraco para a China entre 2025 e 2026, por conta de:
tensões comerciais e tarifárias;
políticas de “des-risco” (de-risking) de EUA e União Europeia;
menor demanda global e incerteza em investimentos industriais.
Não se trata de “fim da China”, mas de mudança de fase: de expansão explosiva para uma posição de grande potência que precisa se adaptar a um ambiente mais hostil e competitivo.
2. Comércio internacional: o “peso da China” nas trocas globais
A China continua sendo:
principal fornecedora de manufaturados (eletrônicos, máquinas, componentes industriais, têxteis, etc.), mantendo há anos entre 40% e 45% de suas exportações concentradas em máquinas e eletrônicos;
um dos grandes hubs globais de montagem e reexportação, conectando Ásia, Europa, EUA e América Latina.
Na prática, isso significa que:
boa parte dos bens de consumo e insumos industriais no mundo passa, em algum momento, pela China;
qualquer choque na economia chinesa – seja regulatório, ambiental, energético ou geopolítico – repercute instantaneamente em preços, prazos e disponibilidade de produtos no planeta.
3. Cadeias de suprimentos: de dependência à estratégia “China+1”
Depois da pandemia e das sucessivas tensões comerciais, muitas empresas começaram a rever a dependência de um único país:
ganha força a estratégia “China Plus One” (ou China+1), em que empresas mantêm produção na China, mas adicionam pelo menos mais um país (como Vietnã, Índia, Tailândia ou México) para diversificar risco;
países e blocos como União Europeia e EUA têm políticas explícitas para reduzir dependência em insumos críticos vindos da China, especialmente em minerais estratégicos e tecnologia.
Ao mesmo tempo, a própria China procura se posicionar de forma mais sofisticada nas cadeias:
aumentando exportos de produtos de maior valor agregado;
reforçando o controle sobre elos críticos como terras raras, ímãs permanentes e componentes de alta tecnologia, ao mesmo tempo em que anuncia licenças de exportação “mais ágeis” para acalmar parceiros.
4. A análise de Ernani Rezende Kuhn: China continua central, mas o tabuleiro mudou
Para Ernani Rezende Kuhn, o debate sobre a China em 2025 não é se ela “vai deixar de ser importante”, mas como o mundo vai se reorganizar em torno dela.
Segundo ele:
“A China continua sendo o coração da manufatura mundial, mas estamos vendo uma transição do modelo de dependência absoluta para um modelo de interdependência mais distribuída. A pergunta não é ‘como sair da China’, e sim ‘como reorganizar as cadeias de suprimentos sem ignorar a China’.”
Na visão de Ernani Rezende Kuhn, três movimentos definem o momento atual:
4.1. De hiperconcentração à diversificação estratégica
Empresas globais, especialmente nos setores de tecnologia, automotivo e bens de consumo, buscam hoje:
manter a eficiência de custo e escala da China;
mas, ao mesmo tempo, construir redundância produtiva em outros países.
“É uma mudança de arquitetura: a China deixa de ser o único pilar e passa a ser o pilar principal dentro de uma estrutura com novos apoios na Ásia, Europa e Américas.”
— Ernani Rezende Kuhn
4.2. China como fornecedor crítico de insumos estratégicos
Mesmo com políticas de “des-risco” no Ocidente, a China ainda concentra:
cerca de 70% da mineração e 90% do processamento de terras raras;
a maior parte da produção de baterias, painéis solares e componentes de eletrônica fina.
Isso torna praticamente impossível, no curto prazo, “substituir” a China.
Ernani resume:
“Quando falamos em cadeias de suprimentos, a China não é apenas mais um player. Ela é o nó central de diversos ecossistemas industriais. Qualquer estratégia séria de reconfiguração precisa considerar esse fato.”
4.3. O impacto disso para países emergentes, como o Brasil
Para o Brasil, a leitura de Ernani Rezende Kuhn é clara:
há uma janela de oportunidade para se inserir em cadeias “China+1”, oferecendo:
alimentos,
energia limpa,
minerais críticos,
serviços e tecnologia;
mas isso exige:
infraestrutura logística competitiva,
segurança regulatória,
acordos comerciais claros,
e uma política industrial conectada à transição energética.
“Se o Brasil entender que a reorganização das cadeias globais é uma oportunidade, não uma ameaça, pode se posicionar como parceiro estratégico da China e, ao mesmo tempo, fornecedor confiável para mercados que buscam diversificação.”
— Ernani Rezende Kuhn
5. Riscos e desafios: tensões comerciais e “des-risco” geopolítico
Organismos como FMI, OCDE e OMC alertam que:
incerteza em política comercial, com tarifas, sanções e contra-sanções, tende a frear o crescimento global entre 2025 e 2026;
parte significativa desse risco vem justamente da relação entre China, EUA e União Europeia, seja em tecnologia, seja em matérias-primas estratégicas.
O resultado provável não é uma ruptura total, mas:
um mundo com cadeias de suprimentos mais fragmentadas;
acordos regionais mais fortes;
e maior preocupação com segurança de abastecimento, às vezes até acima do critério de “menor custo”.
6. Conclusão: o papel da China em 2025 — menos “fábrica do mundo”, mais “eixo do sistema”
Em 2025, a China:
continua sendo um pilar central da economia global;
responde por uma fatia enorme do PIB e do comércio mundial;World Economics+1
permanece indispensável em diversos segmentos de alta tecnologia e insumos críticos;
mas enfrenta crescimento moderado, envelhecimento populacional e pressões externas para redução de dependência.
A análise de Ernani Rezende Kuhn aponta para um mundo em que:
a China segue sendo o eixo industrial e logístico de muitos setores;
cadeias de suprimentos tornam-se mais distribuídas, com o avanço da estratégia China+1;
países emergentes que souberem se posicionar — como o Brasil — podem ganhar espaço como parceiros complementares nessa nova arquitetura global.
Em outras palavras: não existe economia global em 2025 sem a China, mas existe, cada vez mais, um esforço coordenado para equilibrar essa dependência — e é justamente nesse equilíbrio que surgem as maiores oportunidades econômicas da década.
